terça-feira, agosto 22, 2006

É o vinho senhor, é o vinho...

Pintura de José Malhoa - Museu de Caldas da Rainha

Este tema é candente e nada melhor que a arte de José Malhoa - os bêbados - para complementar um texto já de si com um grau (não alcoólico) de dificuldade elevado, tendo em conta a sua antiguidade, assim como uma actualidade incontestável. Não vamos fazer a apologia do vinho, bom ou mau, nem das suas qualidades e defeitos. Vamos contar uma história ocorrida em Lisboa (como poderia ter acontecido em qualquer outra cidade ou lugar) na década de 60. Quem conheceu Lisboa naquela época ainda teve oportunidade de ver pequenas casas a que chamavam tavernas - estavam espalhadas por toda a cidade - e que na generalidade vendiam apenas vinho, embora algumas já tivessem tabaco e alguns alimentos, sobretudo productos hortícolas. Recordo-me de que o vinho era vendido a copo e tirado da pipa no momento.Estas casas tinham um horário bastante alargado e eram frequentadas por pessoas de todas as categorias sociais, embora fossem os indivíduos de menores recursos que mais recorriam a estes espaços. Não fui frequentador daquele tipo de casas, pois nessa ocasião já começavam a surgir por toda a cidade os cafés e era para lá que os mais novos se encaminhavam. Era o local de convívio e estudo (sim, de estudo, quantos jovens iam para a mesa do café, tomavam algo e passavam lá horas a estudar, eu também o fiz. Eram outros tempos). Ao lado do prédio onde eu morei havia uma taverna e nessa altura tive oportunidade de conhecer muita gente que a frequentava, até porque uma boa parte eram vizinhos ou moravam não muito distante.
O Vinho era vendido a copo, directamente do barril

Um senhor já de meia idade e pintor de profissão, era um dos fregueses habituais daquela taverna. Ao fim da tarde e até anoitecer, eram inúmeras as vezes que o via a beber uns copitos e fazendo farra com os companheiros. Com o seu fato-macaco azul, alto e magro, fácilmente se distinguia - até pelo tom de voz. Quando eu passava sabia se ele estava ou não. Uns copitos a mais que a conta e ei-lo a falar bem alto, rindo-se por tudo e por nada. Homem muito trabalhador, com mulher e quatro filhos - só varões - não perdia a visita diária àquela taverna. Não se constava que em sua casa faltásse o que quer que fosse, mas a verdade é que a esposa não gostava daquele modo de vida, censurando-o com frequência. Apesar disso, o tempo foi passando, os quatro filhos cresceram, fizeram os estudos primários, mas um deles tinha um sonho: ser médico, doutor, como ele dizia. Contudo, os pais não tinham posses para tal. Começou a trabalhar cedo num escritório - como paquete - e à noite frequentava uma escola. Passado algum tempo deixei de os ver, mudaram-se de casa. O tempo vai passando inexorávelmente e eu nunca mais voltei a ver qualquer membro daquela família. Passados mais de quinze anos, encontrei casualmente - num café que outrora frequentara - o dito jovem que sonhava ser médico. Olhei na sua direcção, mas hesitei em dirigir-me a ele, na verdade não me parecia o mesmo, estava diferente, mas os traços fisionómicos eram os mesmos. Apesar de tudo isso, avancei e perguntei-lhe se era o Fernando que morara na minha rua, ele respondeu-me afirmativamente, reconhecendo-me também. Estivemos muito tempo à conversa, recordando esses tempos. O pai falecera com uma doença no fígado, os irmãos e a mãe eram vivos. Mas a minha curiosidade era saber o que ele tinha feito, se conseguira ou não concretizar o sonho. Para meu espanto, ele disse-me: estou a exercer medicina no hospital X. Comecei a fazer inúmeras perguntas, recordo-me que ele me confessou que o desejo de ser "doutor" o levou a suportar todos os sacrifícios: trabalhar de dia e estudar à noite até uma certa altura e depois mudar de emprego e continuar a estudar por cadeiras (disciplinas) acabando a formatura, tal como ansiara. Disse-me que o dia do "doutoramento" havia sido o melhor da sua vida até então. A alegria da mãe e dos irmãos fora uma enorme satisfação para ele. O pai já não teve oportunidade de ver, mas foi a ele que o jovem médico dedicou todo o seu trabalho. Um dia, o pai perguntara-lhe se ele queria ir trabalhar para a pintura com ele e a resposta foi sêca e directa: não pai, eu quero ser médico, quero ser alguém na vida. Também eu fiquei feliz por ele, conseguiu realizar o seu sonho. Ao saber a causa da morte do pai, perguntei-lhe de uma forma algo "desconchavada": então e tu também gostas da pinguita? (não sei como consegui o atrevimento para isso, mas de facto perguntei) Ele olhou-me muito sério e disse: não da forma como estás a pensar, não herdei isso de meu pai - nem nenhum dos meus irmãos -, bebo também às refeições ou mesmo fora delas em convívio, mas faço-o moderada e sensatamente. Mudei de imediato de assunto, mais tarde tive ocasião de voltar a conversar com ele e sinceramente, ainda hoje, vejo naquele jovem um exemplo para tantos que não o são.

A história que descrevo acima é real, talvêz eu tenha sentido alguma dificuldade em transmiti-la fielmente, mas quis fazê-lo para expressar o que penso àcerca do vinho - e até de outras bebidas. Quase tudo é bom, desde que consumido com moderação. O vinho é uma dádiva de Deus - não foi por acaso que frades de várias ordens foram dos primeiros a produzir dos melhores vinhos e até cervejas -, os médicos são de opinião de que beber vinho moderadamente faz bem à saúde. Fernando Pessoa dizia: boa é a vida, mas melhor é o vinho. Segundo a sua perspectiva, até tinha razão. Na sociedade portuguesa beber é snob, é moda, qualquer bebida serve para "marcar" a diferença, sobretudo entre a juventude. Quando se pensa assim, estamos a um passo do abismo que cava a diferença no ser humano. Perdem-se grandes homens e mulheres só porque não souberam distinguir (ou não conseguiram) entre o beber com prazer e moderação e o beber para se exibirem. Quem for inteligente e sensato saberá encontrar a melhor via, embora qualquer ser humano tenha a liberdade de se promover ou autodestruir, a escolha fica ao critério de cada um.

4 comentários:

Ana Karina disse...

"É o vinho senhor, é o vinho..."
Adorei esse texto, mas infelismente não conheço Lisboa, mas tenho muita vontade de conhecer, pois tenho um grande amigo que mora em Viseu e me fala muito bem de Lisboa, pois ele conhece.
Por sinal adoro vinho...rsrsrs...
Amigo, adorei a sua visitinha no meu cantinho e gostaria de saber se vc é de Portugual??? Por que pelo texto vc é, mas sei lá né!!!!
Espero a sua visita sempre que quiser ok!!!
Beijokas!!!

Ket disse...

Querido menino Eduardo obrigaduu pela visita espero que volte sempre.Amigo seu blog é um encanto adorei seus textos são aulas para mim...
Bom final de semana
Bjokinhas carinhosos

bitu disse...

Passando rapido para agradecer a visita e desejar um optimo fds. Um abraço...ah, vou colocar + fotos

Luisa disse...

Nunca gostei de bêbados! Na minha terra havia imensos espalhados pelas inúmeras tabernas como as que descreves no teu texto. Como boa estremanha gosto muito de vinho, principalmente tinto, mas tem de ser muito bom e bebido só às refeições.